O que será que o Google está fazendo com nossos cérebros?


Qual o preço que teremos de pagar pela dependência cada vez maior das ferramentas de busca na web? Um livro tenta descobrir a resposta.

Era para ser algo rápido, sucinto. Uma olhada na página de notícias e pronto – afinal de contas, amanhã é dia de trabalho e já passa das dez da noite. O internauta abre o site e começa ler a atualização do debate dos candidatos. “Que resposta boa”, pensa. Mas, antes de chegar ao final da matéria, uma imagem de um evento na Amazônia chama sua atenção. Como não usa o recurso de abrir o link em uma nova aba, o internauta clica no título e vê, com os olhos arregalados, a triste verdade sobre o desmatam… O que?! Lançaram o “iPhone22 XGS RamWiFi Giga Server Edition”?! Click.

Enquanto lê sobre os recursos do aparelho gadget computador de bolso com função de celular, uma notificação do post de um conhecido no Facebook sobe no canto direito da tela. “Preciso ler isso”, pensa. “Aproveito e atualizo os tweets do dia”, murmura. E o debate? Já era. Caiu no esquecimento. Nem era tão importante assim, era?

Essa rotina digital caótica o lembra de alguma coisa?

Em um artigo publicado em 2008 na revista The Atlantic, o autor Nicholas Carr pergunta ao leitor: “Is Google Making Us Stupid?” (Estaria a Google nos deixando estúpidos? – em tradução livre do inglês). Quando o artigo saiu, era provável que “sim, a web tem o poder de nos distrair e influenciar em como trabalhamos. Agora ‘deixar-nos estúpidos?’ Não, de jeito nenhum”.

Agora, passados dois longos anos da publicação do artigo de Carr, a certeza não é mais tanta. O autor expandiu o ensaio em forma de artigo para as páginas de um livro chamado “The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains” (Oblíquo: O que a internet está fazendo com nossos cérebros – em tradução livre do inglês). A obra realiza uma expedição para dentro do cérebro de internautas e traz à tona os resultados do constante estímulo exercido pela Internet em nossas capacidades de concentração, de guardar informações, de racionalizar e de sentir empatia. De fato, Carr não participa da ideia que transforma a Internet no bastião do conhecimento e da cultura.

Em um trecho do livro, Carr escreve: “Ao longo dos últimos anos tenho a estranha sensação de que algo ou alguém andou fazendo experimentos com o meu cérebro; remapeou, reprogramou.”

O autor recarrega e dispara contra o que pensa ser o grande malfeitor desse fenômeno: a Google.

Google 2mg

“Cada clique na internet mina nossa concentração, destrói os fundamentos de nossa atenção. E o Google quer mais é que cliquemos, quanto mais, melhor”, escreve. “O negócio da Google é vender distração”, diz.

É preciso avisar, antes de mais nada, que o livro não é uma obra que prega o ciberapocalipse. O único pecado do autor consiste em não oferecer ao leitor as soluções para a série de questionamentos que levanta. Carr é blogueiro e comentarista da editoria de tecnologia; ele não vislumbra a chegada de uma nova era de intelectualismo contemplativo e anuncia a plenos pulmões a característica principal intrínseca às inovações tecnológicas (de Gutemberg até a televisão): ela distrai.

Imagine-se essa onda há 400 anos.

No centro de um burgo, o eclesiástico toma a palavra e anuncia que “o número crescente de livros é a praga de nosso tempo. Jamais o mundo poderá dar conta de assimilar o volume ocioso de informações impresso a cada dia”.

Se o autor tivesse restringido os comentários aos efeitos da Internet e da tecnologia na concentração humana, o livro, quem sabe, fosse só mais um; nada realmente importante. Afinal de contas, nada há de surpreendentemente revelador na afirmação de que enviar mensagens SMS enquanto dirige é perigoso ou que clicar em tudo que vê pela frente é perda de tempo.

Carr reúne um elenco bastante relevante de dados obtidos com base em trabalhos recentes e práticos – não tão experimentais assim. Baseado no que descobre, afirma que a tecnologia não está mudando o que fazemos, mas, também, como pensamos.

Ele apresenta referências do trabalho da psicóloga Patrícia Greenfield, desenvolvidos na universidade californiana de Los Angeles (UCLA). Greenfield estuda a influencia da mídia na maneira de aprendermos. “Cada mídia desenvolve determinadas competências cognitivas em detrimento de outras. O uso crescente das mídias nos monitores fomenta o aperfeiçoamento da inteligência espacial. Isso pode nos habilitar a  dar conta de diversas tarefas ao mesmo tempo, como é o caso de controladores de tráfego aéreo. Ao mesmo tempo, as tarefas que demandam por conhecimentos mais refinados, com o é o caso de recursos linguísticos, habilidade de reflexão, resolução de problemas com base na indução e o pensamento crítico, perdem.

Ou, se preferirmos a síntese de Carr, “o ser humano está ficando superficial”.

Experts balançam a cabeça

Existem experiências em andamento que apontam para outro lado. Em um denso artigo publicado na seção de crítica literária do jornal New York Times do mês passado, Johan Lehrer citou descobertas de cientistas da UCLA que indicam um aumento da atividade cerebral quando se realizam pesquisas no Google – atividade superior à registrada quando um livro é lido.

Leher é colaborador da Wired e segue em rota de plena colisão com as afirmações de Carr. “Espantoso. Essa área do cérebro é responsável por determinadas aptidões, como atenção seletiva e análise deliberada. Justamente as áreas que Carr afirma estarem desaparecendo. Na verdade o Google não está deixando ninguém menos capacitado que antes. Usar o Google é como ir à academia e exercitar o cérebro; ele deixa é esperto”.

Será?

Carr contra-argumenta com a informação de que os cérebros humanos são plásticos, moldáveis. “Interrupções e distrações constantes enquanto estamos online impede que os cérebros exercitem de maneira eficaz as conexões neurais responsáveis por determinar a profundidade do raciocínio e a distinção entre as ideias. O que acontece é que nos tornamos unidades interpretadoras de sinais, passamos horas pastoreando informações desconexas e remendando fragmentos de memória temporária”, afima.

Até mesmo os links que oferecem ao leitor o acesso às informações necessárias não contidas no texto representam, na verdade, uma distração, acredita Carr. A pesquisadora da universidade de Michigan, Erping Zhu,realizou um ensaio com pessoas que liam o mesmo artigo online, mas com estruturas de links diferentes. Ela conclui que a qualidade da informação absorvida era inversamente proporcional ao número de links nas matérias. Zhu explica: Os leitores tinham a tarefa de avaliar a importância de cada link no contexto informacional dos artigos. Isso lhes tomava muito tempo e comprometia a capacidade que o cérebro tem em absorver as informações.


(Bill Snyder)
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Por CIO/EUA
Publicada em 23 de junho de 2010 às 09h10
Atualizada em 23 de junho de 2010 às 09h34
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