Sucesso em “Avatar”, Canonical mira o mercado corporativo


Nos bastidores de Hollywood, o Ubuntu já é um sucesso. Em “Avatar”, filme do diretor James Cameron que já bateu todos os recordes de bilheteria, é ele o sistema operacional que dá apoio aos demais programas de efeitos especiais usados na ficção científica.

Sobre o Ubuntu, a empresa americana Weta Digital, responsável pelos efeitos do filme, despejou a infinidade de recursos que resultaram em uma produção em que cada minuto ocupa a surpreendente carga de 17,3 gigabytes de dados. Agora que conquistou o mundo imaginário criado por Cameron, o Ubuntu quer garantir seu espaço na “computação em nuvem”, conceito segundo o qual os recursos de tecnologia da informação (TI) são acessados via internet, sem a necessidade de estar instalados nas máquinas dos usuários.

O Ubuntu – termo em banto-africano que significa “eu sou o que sou pelo que todos nós somos” – é um dos sistemas da família Linux, software gratuito e de código aberto, o que significa que pode ser usado e modificado por qualquer pessoa ou empresa. Por trás de sua criação está a inglesa Canonical, companhia criada em 2006 e que, em pouco tempo, se tornou uma das principais empresas de software livre do mundo, ao lado de Mandriva, Novell e Red Hat.

“A cada seis meses, nós lançamos uma nova versão do Ubuntu. A próxima versão, que chega em abril, vai trazer uma série de novidades para aprimorar o uso do sistema em ambientes de computação em nuvem”, diz Maria Boneffon, diretora mundial da Canonical. A executiva, que visitou o país na semana passada, falou com exclusividade ao Valor.

Mais do que a própria Canonical, diz Maria, o que ajuda a transformar o Ubuntu em um sistema de porte é a comunidade de colaboradores que o software detém mundo afora. O Brasil, em particular, é protagonista no desenvolvimento do sistema. Com uma comunidade de desenvolvedores de 15,7 mil pessoas, o país é hoje responsável por 30% do total das comunidades que colaboram com o Ubuntu. Para a Canonical, uma empresa de capital fechado e que conta com apenas 300 funcionários no mundo, fica o papel de consolidar as atualizações e entregar as novas versões do software.

Com a escalada para a computação em nuvem, comenta Maria, a Canonical planeja se aproximar mais das empresas que pretendem adotar seu sistema ou já fizeram isso. “Hoje, em todo o mundo, há mais de 12 milhões de usuários do Ubuntu”, diz ela. “A maioria desses usuários são pessoas físicas, mas temos expandido muito nossa presença entre as empresas e isso é uma tendência.”

Na última sexta-feira, a Canical anunciou que seu fundador da Canonical, Mark Shuttleworth, vai ser substituído em março pela atual diretora de operações da companhia, Jane Silber. Em seu lugar ficará Matt Asay, um especialista em software livre que já passou pela Novell. Com a mudança, Shuttleworth pretende centrar-se mais na concepção do produto.

O interesse da Canonical em promover o Ubuntu entre usuários empresariais está atrelado aos contratos de serviços que esse tipo de cliente pode proporcionar. O acesso ao Ubuntu, seja uma versão para uso residencial ou uma edição destinada a rodar em um servidor – computador que gerencia os recursos de uma rede nas empresas -, é gratuito. O faturamento da companhia é gerado pelos serviços de suporte e manutenção.

“A maneira como as pessoas lidam com software está mudando radicalmente”, comenta a executiva. “Empresas como Salesforce e Google estão acelerando esse processo e nós também fazemos parte desse caminho.”

Em sua visita ao Brasil, Maria deu palestras fechadas para executivos e visitou clientes. Ela não revela nomes, mas afirma que a Canonical já fechou contrato com sete companhias de grande porte no país. A Canonical também tem se esforçado para embarcar o software nos equipamentos dos fabricantes de PCs e servidores. Em portáteis como os netbooks, a executiva afirma que o Ubuntu pode resultar em um produto até 40% mais barato que outro baseado no sistema Windows, da Microsoft.

A Canonical tem parceria com vários fabricantes fora do Brasil, entre eles Acer, Hewlett-Packard (HP), Dell e Toshiba. No país, por enquanto, o único parceiro local é a Meoo PC. “Estamos muito empolgados com as possibilidades de negócios no Brasil”, diz a executiva. “A aventura só começou.”

Trocando em miúdos

A principal característica dos programas baseados no modelo de software livre é permitir que o usuário manipule o código básico do sistema e faça adaptações conforme as suas necessidades. Uma vez que o usuário baixa um software desse tipo em seu computador, ele pode modificá-lo e distribuí-lo gratuitamente. As diferentes versões do sistema operacional Linux – que é o mais famoso no mundo do software de código aberto – concorrem principalmente com o Windows, da Microsoft. Pacotes de sistemas de produtividade, como OpenOffice, EasyOffice e StarOffice, também rivalizam com o pacote MS Office, da companhia de Bill Gates.

Boa parte da gratuidade do software livre, no entanto, está atrelada ao uso residencial desses sistemas. Nas empresas, onde o software livre também pode ser usado em servidores, sua adoção costuma ser acompanhada de um contrato de serviços de suporte e manutenção. A diferença é que, enquanto a Microsoft vende seus sistemas apoiada no tradicional modelo de licença por usuário, companhias como Canonical, Novell e Red Hat oferecem diferentes contratos de serviços. Para competir entre si, cada uma dessas empresas desenvolve seu próprio sistema Linux. A Canonical vende o Ubuntu, enquanto a Novell oferece o Suse e a Red Hat coloca nas prateleiras um sistema que leva seu nome.

Valor Econômico – SP, André Borges, 8 de fevereiro de 2010
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